Segunda-feira, 19 de Dezembro de 2005

Trema

Até 1945 colocava-se em Portugal um trema sobre o “u” dos grupos “gue” , “gui”, “que” e “qui” para indicar que esse “u” se pronunciava. Assim escrevia-se “agüentar” e “tranqüilo”.

Ao ler-se um texto publicado no Brasil uma das coisas que mais salta à vista é o uso do trema.

O acordo ortográfico estabelece na sua base XIV que o trema é inteiramente suprimido em palavras portuguesas ou aportuguesadas. Só os brasileiros serão afectados por esta disposição. Não só porão de lado o trema como deixarão de ter ortografias duplas como “liqüidar” e “liquidar”, correspondentes às duas pronúncias “likuìdar” e “likidar”.

O trema foi usado no passado em ortografias como “ruïnoso”, que tem a divisão silábica “ru-i-no-so”. O “i” não constitui ditongo com o “u” de “ru”; não se pronuncia como “Rui”, mas sim “ru-i”. O trema servia para indicar que não existia ditongo.

No Brasil o governo do Presidente Emílio Médici eliminou em 1971 o uso do trema com esta última função. Tal modificação teve poucos efeitos práticos, pois era facultativo e muito raro o uso do trema em tais casos. O trema que subsiste no Brasil e que o acordo eliminará é o de palavras como “cinqüenta” ou “argüido”.

Acrescente-se que na mesma altura o Brasil introduziu duas outras alterações ortográficas, estas de profundas repercussões. Uma consistiu na eliminação do acento em palavras como “êste” ou “côrte”, coisa que Portugal tinha feito em 1945. A outra foi a eliminação de acento grave ou circunflexo em palavras como “cafèzinho”, “àvidamente” ou “cortêsmente” e que Portugal seguiria dois anos depois.

O acordo estabelece que em virtude da supressão do trema não se usa qualquer sinal para distinguir em sílaba átona, isto é que não é a tónica, um “i” ou um “u” de uma vogal anterior com a qual não faz ditongo e dá os exemplos seguintes: “arruinar”, “constituiria”, “depoimento”, “esmiuçar”, “faiscar”, “faulhar”, “oleicultura”, “paraibano” (relativo a “Paraíba”, estado brasileiro), “reunião”. Também não se usa nenhum sinal para indicar, também em sílaba átona, um “i” ou um “u” de um ditongo precedente. Entre os exemplos que fornece constam “abaiucado”, com a divisão silábica “a-bai-u-cado” e “piauiense” (relativo ao “Piauí”, estado brasileiro), com as sílabas “pi-au-i-en-se”

O trema manter-se-á em palavras derivadas de nomes próprios estrangeiros como “hübneriano” de “Hübner” ou “mülleriano” de “Müller”. Como vimos em artigo anterior, o acordo estabelece na Base I que na formação de derivados a partir de nomes próprios estrangeiros se conservam ortografias estranhas à língua portuguesa que neles existam.

João Manuel Maia Alves
publicado por João Manuel Maia Alves às 18:00
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