Sexta-feira, 26 de Agosto de 2005

Fundamentalismo ortográfico

Pelo Doutor Vital Moreira, professor de Direito da Universidade de Coimbra

O Acordo Ortográfico recém-assinado entre Portugal, o Brasil e os PALOP levantou em alguns sectores, da mais variada cor política e ideológica, uma onda de crítica e rejeição, que revestiu aspectos aspectos insolitamente apaixonados e radicais.

Um iracundo candidato à presidência da República (da direita, claro!) fez questão de manifestar o seu veemente “repúdio” por essa traição à língua-mãe; um breve e celebrado escritor proclamou a sua determinação em não respeitar o Acordo, decretando resistência civil; dois deputados, usualmente prudentes e esclarecidos, foram ao ponto de declarar a inconstitucionalidade da pretendida alteração da ortografia por acto de autoridade do Poder público; enfim, literatos, escritores, editores e livreiros, e vária gente avulsa mobilizaram-se em defesa da ortografia vigente, contabilizando prejuízos, inventariando cedências e profetizando as desgraças e catástrofes trazidas pela nova ortografia.

Com poucas excepções - em que sobressaem os ponderados argumentos de Óscar Lopes – a oposição e as reservas ao novo convénio ortográfico deixam muito a desejar em matéria de sensatez, razoabilidade, equilíbrio e ponderação. Por minha parte, não possuindo credenciais de linguísta nem de literato, devo confessar como simples cidadão utente da língua, que não entendo a razão para tanto alarido. Na minha opinião, modesta e profana, o Acordo Ortográfico, globalmente considerado – e tanto quanto é possível avaliar pelo que dele se conhece – não só não traz grande mal ao mundo, como pode reclamar-se de consideráveis vantagens sob o ponto de vista da unidade e da universalidade da língua portuguesa.

Descontado o atrevimento, proponho-me explicar a minha posição.

As vantagens e os prejuízos

O que até agora ninguém conseguiu provar é a utilidade em manter, dentro do espaço da língua portuguesa, um grande número de disparidades ortográficas entre a norma portuguesa e a brasileira, que não correspondem a significativas diferenças de pronúncia. Tenho por indiscutível que só existe vantagem em a língua ter, tanto quanto possível, a mesma ortografia em todos os países de que se tornou património comum. Se é possível eliminar consensualmente a maior parte dessas divergências ortográficas, não entendo como se pode deixar de ver aí um mérito, tanto em termos de comunicação recíproca no espaço lusófono, como também em matéria de valorização internacional da língua.

Considero sem valor o argumento adverso de que o Acordo não logra obter a eliminação total das disparidades ortográficas, mantendo duplas grafias num número significativo de palavras. Primeiro, é natural que se mantenham diferenças de grafia lá onde existem diferenças de pronúncia, tendo sido a tentativa de forçar uma unificação total uma das razões do falhanço do frustrado acordo de 1986; segundo, a impossibilidade de unificação absoluta não pode justificar que se mantenham desnecessariamente as diferenças supérfluas. Não existe nenhuma lógica em não se avançar para a convergência possível, só porque não se consegue chegar à meta dos 100 por cento. A redução das divergências, quando significativa, e desde que reconheça e delimite as diferenças remanescentes é sempre positiva. Além do mais, um acordo colectivo nesta matéria cria naturalmente um compromisso de renúncia no futuro a alterações ortográficas unilaterais, as quais no passado foram as principais responsáveis pela criação de diferenças entre as duas normas ortográficas oficiais.

Sem dúvida que uma reforma ortográfica não pode deixar de implicar perturbações e custos mais ou menos elevados em diversos sectores, sobretudo no domínio editorial e educativo. Mas não vejo razão para sobrestimar os custos da reforma. A última mudança ortográfica foi há menos de vinte anos, e não consta que tenha sido uma tragédia, nem quanto à reaprendizagem da escrita, nem em termos de renovação dos fundos bibliográficos. Neste aspecto, são obviamente legítimas as preocupações de editores e livreiros. Mas não há motivo para exagerar os seus prejuízos (uma zelosa defensora dos seus interesses chegou a escrever que as modificações ortográficas farão inutilizar até as fotografias, como se a ortografia afectasse as imagens...). E, sobretudo, não pode dar-se a impressão de que a indústria livreira só vê na actual diferença de normas ortográficas uma espécie de barreira alfandegária contra a concorrência do livro brasileiro.

De qualquer forma, os eventuais custos financeiros e outros não devem ser tão encarecidos, que prevaleçam sobre o interesse político e cultural do Acordo, em termos de unidade e promoção da língua portuguesa.

Nacionalismo e universalismo

Em muitas das tomadas de posição de princípio contra a reforma ortográfica é indisfarçável um mal confessado pressuposto nacionalista, sendo frequentes as menções às alegadas “cedências” perante os interesses brasileiros e à ideia de que o Acordo não é mais do que o alinhamento da ortografia portuguesa pela norma brasileira, implicando alterações apenas para Portugal. Por vezes, não falta mesmo algum rancor no modo como alguns adversários do Acordo se rebelam contra o facto de supostamente irmos passar a escrever “à brasileira”, quando afinal somos nós os Portugueses os criadores originários da língua.

A este respeito penso que, para além de o chauvinismo linguístico ser em geral mau conselheiro, há aqui dois equívocos óbvios. Primeiro, a língua portuguesa não é mais património português do que de qualquer dos outros países lusófonos, não sendo lícito reivindicarmos ou esperar que nos sejam reconhecidos privilégios ou poderes senhoriais, sobretudo quanto estamos longe de ser o mais influente e populoso entre os países de fala portuguesa. Segundo, não existe nenhum desdouro, num processo de negociações internacionais, envolvendo necessariamente transigências de parte a parte, e seria estulto exigir que as modificações tivessem de repartir-se de forma absolutamente paritária. Ora é indiscutível que o Acordo tanto afecte a norma portuguesa (caso da famigerada supressão das consonante mudas) como a norma brasileira (caso da eliminação de certos acentos e do trema) ou ambas ao mesmo tempo (como no caso das novas regras sobre o hífen).

O que importa considerar é se há alguma razão de orgulho nacional para preferir a autarcia ortográfica ao esforço de convergência e de construção de uma norma ortográfica comum a todos os países lusófonos.

Conservadorismo e modernização

Sucede que o argumento nacionalista não é frequentemente mais do que uma conveniente cobertura para um pouco estimável conservadorismo, que resiste por princípio a toda a mudança ortográfica e que faz por ignorar que a actual norma ortográfica é ela mesmo produto de anteriores reformas oficiais, inclusivamente em consequência de acordos luso-brasileiros. Sem elas continuaríamos a escrever pharmácia, lyrio, Emigdio, differença, e assim por diante ...

Sendo a ortografia em grande parte uma convenção, não vejo nenhuma razão para considerar intocável a actual norma, que seguramente não está protegida pela Constituição (pobre desta, se ela pudesse fundadamente ser invocada contra ou a favor de determinada norma ortográfica!...), nem está à guarda exclusiva de algum conselho de sábios, que à semelhança de qualquer fundamentalismo religioso, reserve para si a suprema autoridade sobre a pureza ortográfica da língua

Afinal, não passarão provavelmente muitos anos para que, olhando para trás, recordemos os actuais opositores à mudança ortográfica com a mesma condescendência com que hoje lembramos aqueles que há vinte anos se escandalizaram com o terem de passar a escrever pezinho e rapidamente em vez de pèzinho e ràpidamente...Em matéria de ortografia, nunca é demais uma boa medida de relativismo histórico e de sentido das proporções. E, acima de tudo, ao contrário do que pretendem os guardiões da actual ortografia, a defesa e promoção da língua portuguesa não se confunde com o conservadorismo da sua escrita. Pelo contrário, pode bem suceder que a vitalidade da língua exija uma atempada modernização ortográfica.



Este artigo foi publicado no Diário de Notícias de 1-1-1991. Agradece-se ao jornal e ao autor a transcrição do artigo.


O candidato a presidente da república referido no artigo é Basílio Horta, do CDS. Os dois deputados inimigos do acordo a que se refere o autor são José Magalhães e Jorge Lemos, deputados independentes depois de terem abandonado o Partido Comunista. O segundo rasgou o texto do acordo ortográfico em pleno parlamento numa intervenção contra o mesmo. Vasco Graça Moura, intelectual muito conceituado em todos os quadrantes mas bastante conservador em matéria ortográfica, foi o escritor que incitou à desobediência civil contra o acordo.

publicado por João Manuel Maia Alves às 08:12
link do post | comentar | favorito
|

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Maio 2010

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
10
11
12
13
14
15

16
17
18
19
20
21
22

23
24
25
26
27
28
29

30


.posts recentes

. Convite

. Acordos de 1990 e 1945

. Boas notícias

. Notícias do acordo ortogr...

. Ortografia – uma convençã...

. Reformas ortográficas

. São Tomé e Príncipe ratif...

. Contrações incorretas

. Guiné-Bissau e Acordo Ort...

. Cimeira e acordo ortográf...

.arquivos

. Maio 2010

. Março 2008

. Novembro 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Abril 2006

. Março 2006

. Fevereiro 2006

. Janeiro 2006

. Dezembro 2005

. Novembro 2005

. Outubro 2005

. Setembro 2005

. Agosto 2005

blogs SAPO

.subscrever feeds