Domingo, 20 de Novembro de 2005

Esdrúxulas com divergências (6)

Vimos que o acordo ortográfico estabelece ortografias duplas para um certo grupo de palavras esdrúxulas ou proparoxítonas. Estão bem identificadas tais palavras. A antepenúltima sílaba termina em “e” ou “o”, a que segue um “m” ou um “n”. Exemplos dessas duplas grafias são: académico/acadêmico, anatómico/anatômico, António/Antônio, génio/gênio.

Não existem grafias duplas para todas estas palavras. Por exemplo, temos a palavra “sêmea” sem que exista “sémea”. No entanto, o número destas palavras é muito reduzido.

O “e” ou o “o” da sílaba tónica destas palavras com ortografia dupla é aberto em Portugal, nos PALOP e em Timor. É por isso que actualmente tais palavras recebem acento agudo.

No Brasil a situação é menos clara. Lembro-me de ter lido um artigo dum linguista brasileiro em que se defendia para o seu país a ortografia “António”. Ele perguntava a razão de se dizer “António” e se escrever “Antônio”. Parece-me que, ouvindo brasileiros falar, o que podemos fazer todos os dias, a sílaba tónica das palavras esdrúxulas em causa soa umas vezes mais aberta outras mais fechada. De qualquer modo, parece que é fechada na maior parte do Brasil, sendo essa a razão por que actualmente nesse país se usa o acento circunflexo.

Não sendo aconselhável, como vimos, eliminar os acentos das esdrúxulas, de que outras maneiras poderíamos fazer desaparecer estas divergências? É fácil a resposta: usando-se sempre o acento agudo ou o acento circunflexo nestas palavras.

Examinemos a segunda solução. Aqui em Portugal teríamos de escrever “tônico”, embora disséssemos “tónico” com o primeiro “o” nitidamente aberto. Desculpem a expressão, mas ficava o caldo entornado. Onde é que já se tinha visto em português o acento circunflexo sobre uma vogal aberta? Fosse qual fosse a razão dessa regra, ela era insuportável e contrariava o que sempre tínhamos conhecido. Milhões se sentiriam violentados, vexados, humilhados, excluídos.

Igualmente insuportável seria para muitos o ter de se usar sempre o acento agudo. Imagine-se um brasileiro à volta com a palavra “sêmea”. Qual o acento agora? É fácil, conclui ele, lá em Portugal o primeiro “e” é fechado como no Brasil, logo a ortografia continua a ser “sêmea”. Então e “gênio” como é? O nosso brasileiro tem de saber que neste caso o “e” é aberto em Portugal e passar a escrever “génio”. Como é que se sentirá este brasileiro?

O uso do acento agudo nestes casos de pronúncia divergente é a regra estabelecida pelo acordo luso-brasileiro de 1945, na base XIX, que a seguir se transcreve.

Emprego do acento circunflexo nas vogais “a”, “e” e “o” tónicas dos vocábulos proparoxítonos, quando elas são seguidas de sílaba iniciada por consoante nasal e são invariavelmente fechadas na pronúncia de Portugal e do Brasil. (Exemplos: “câmara”, “pânico”, “fêmea”, “cômoro”.) Emprego do acento agudo em vez do circunflexo, quando não se dá essa invariabilidade de timbre. (Exemplos: “académico”, “edénico”, “anatómico”, “demónio”.) O mesmo se observará em relação aos paroxítonos que, precisando de acentuação gráfica, estejam em idênticas condições. (Exemplos: “Ámon”, “fémur”, “Vénus, “abdómen”, “bónus”.) Observe-se que o acento agudo nos sobreditos casos de pronúncia não invariável serve apenas para indicar a tonicidade, e não o timbre.

Devido a limitações do editor deste blogue, as palavras em itálico no acordo foram colocadas entre parêntese.

Estabelece este texto que, em caso de divergência, deve-se usar o acento agudo, mesmo que milhões de pessoas pronunciem como se o acento fosse circunflexo. É esta a filosofia da ortografia vigente em Portugal. Antes os brasileiros escreviam “Antônio”, “gênio”, etc. Agora seriam obrigados a escrever “António”, “génio”, etc. De acordo com outras normas do acordo, teriam de escrever “acto”, “baptismo”, etc., voltando a usar consoantes que já tinham sido eliminadas no Brasil.

Como era de esperar, houve no Brasil muitas e justificadas reacções negativas a este acordo. O poder político brasileiro teve de ceder e os brasileiros voltaram à ortografia anterior. Fez bem na minha opinião. O acordo era mau em sim mesmo e humilhante para o Brasil.

É muito fácil criticar os ilustres linguistas que elaboraram o acordo de 1945, que veio a ser posto de lado no Brasil, e o projecto de 1986, o tal que quase acabava com os acentos. É mesmo muito fácil criticar a posteriore, depois dos acontecimentos. As intenções desses ilustres académicos eram boas – a unificação da ortografia. Prefiro os seus erros às críticas disparatadas, para não dizer pior, de pessoas como Freitas do Amaral que nunca vi fazerem nada pela língua. Vale, no entanto, ver a pena ver por que falharam essas tentativas bem intencionadas. Uma das razões é que estão destinadas ao fracasso mudanças ortográficas que tentem uniformizar grafias que correspondem a claras diferenças de pronúncia.

Na minha opinião, o acordo de 1990 é equilibrado e tem cedências de todas as partes. Uniformiza o que é possível uniformizar. Não humilha ninguém. Como se costuma dizer, tem pernas para andar.

Com este artigo acabou a análise da acentuação das palavras esdrúxulas. Examinámos as alternativas de tratamento do assunto. Vimos por que razão se justifica a solução encontrada, que envolve à volta de 1400 ortografias duplas.

As regras do acordo ortográfico que falta examinar são muito menos polémicas que algumas já tratadas antes. Não são nada que se compare com a eliminação de consoantes sempre mudas, com as ortografias duplas no caso de consoantes que umas vezes se pronunciam outras não e com as ortografias duplas em palavras esdrúxulas. Daqui para a frente é tudo muito mais pacífico. Mesmo assim, contém matéria que irrita muito boa gente que não suporta a mínima alteração na ortografia

João Manuel Maia Alves
publicado por João Manuel Maia Alves às 17:41
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Segunda-feira, 14 de Novembro de 2005

Esdrúxulas com divergências (5)

Em 1986 vários linguistas do Brasil, de Portugal e dos países africanos de língua oficial portuguesa negociaram um projecto de acordo ortográfico que abolia os acentos das palavras graves ou paroxítonas e das esdrúxulas ou proparoxítonas.

Com esse acordo quase se deixava de usar acentos. As divergências entre a ortografia portuguesa e a brasileira por motivos de diferenças de timbre limitar-se-iam a um pequeno número de palavras como “bebé” e “bebê” ou “guiché” e “guichê”.

Este acordo ortográfico seria uma autêntica revolução para os nossos hábitos. Com a eliminação de acentos “fábrica” e “fabrica” passariam a ter uma só ortografia – “fabrica”. Na frase “ele trabalha numa fabrica moderna” o leitor teria de descobrir que o acento tónico de “fabrica” incidia sobre a antepenúltima sílaba. Quem lesse a frase “esta unidade industrial fabrica produtos alimentares” teria deduzir que “fabrica” era palavra grave.

Para uma pessoa com grande domínio da língua e um grande vocabulário a eliminação de acentos não traria grandes desvantagens. Mesmo assim, poderia viajar num avião ou num comboio e, de repente, encontrar um termo que não conhecia. Poderia ser, por exemplo, “alarcanacetemia”, que é um nome inventado. A pessoa poderia ficar com dúvidas quanto à sílaba tónica, o que só poderia esclarecer com um dicionário, mas podemos andar sempre com um dicionário?

O inglês praticamente escreve-se sem acentos, mas sabemos o tormento que é ler nessa língua sem um dicionário por perto. De repente, aparece uma nova palavra ou uma palavra de que esquecemos a pronúncia. Olhamos para ela e o mais certo é não fazermos ideia de qual é a sílaba tónica. Apanhamos cada surpresa! Sabemos que “famous” se pronuncia mais ou menos “feimâç”. Aparece “infamous”. Se houvesse lógica no inglês, esta palavra seria pronunciada “infeimâç”, mas, como sabemos o que a casa gasta, vamos consultar o dicionário e descobrimos que “infamous” se pronuncia “ínfâmâç”! Apetece amaldiçoar tal língua e tal ortografia.

Hoje não temos dificuldade em saber qual é a sílaba tónica de qualquer palavra.. A eliminação radical de acentos proposta pelo projecto de acordo de 1986 levaria a podermos encontrarmos na leitura palavras sem saber onde colocar o acento tónico. Poderia ser colocado na sílaba errada.

É preciso não esquecer o fraco nível cultural de grande parte dos actuais habitantes dos países de língua portuguesa. As regras ortográficas, como quaisquer outras, não podem esquecer as pessoas de carne e osso a que se aplicam. Apontou-se, com razão, que a falta de acentos conjugada com o fraco nível cultural dos falantes do português poderia levar à tendência de tornar graves palavras esdrúxulas. Por exemplo, as “análises” poderiam passar a “analises”, com acento tónico na sílaba”li”.

Que aconteceu ao tal projecto de acordo de 1986? Levantou tanta polémica que não chegou a ser ratificado por qualquer parlamento. Os negociadores tiveram de voltar a reunir-se e decidir algo de menos ambicioso. Assim nasceu o acordo de 1990.

De qualquer modo, as propostas de 1986 continuam a seduzir muitas pessoas. Quando foi apresentado o acordo de 1990, o Prof. Jacinto Nunes, da Academia das Ciências, disse que no futuro, em ocasião mais propícia, os acentos seriam eliminados.

Houve quem dissesse que se cedeu à demagogia de uns tantos que se julgam donos da língua e que se pôs de lado um bom acordo. Talvez, mas não se pode esquecer as muito precárias condições da maioria das escolas dos países africanos de língua oficial portuguesa e de Timor, em termos humanos e materiais. Em caso de dúvidas sobre a colocação do acento tónico, como as esclareceriam? Quantas dessas escolas dispõem de dicionários ou prontuários? Poucas e não será tão depressa que vão dispor desses instrumentos. São muitas vezes escolas isoladas. Um dia terão ligação à Internet, mas não será tão depressa.

Também a falta de acentos dificulta a aprendizagem de termos técnicos e científicos, frequentemente aprendidos pela leitura.

Não foi ainda este acordo ortográfico que aboliu os acentos das palavras esdrúxulas. Quem sabe se num futuro mais ou menos longínquo não estarão criadas condições para a abolição dos acentos e, então, naturalmente, as autoridades linguísticas e políticas decidir-se-ão pela sua eliminação. É uma questão de futurologia, que não é o assunto deste blogue.

João Manuel Maia Alves
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Segunda-feira, 7 de Novembro de 2005

Esdrúxulas com divergências (4)

Vimos que o acordo ortográfico estabelece ortografias duplas para um certo grupo de palavras esdrúxulas ou proparoxítonas. Estão bem identificadas tais palavras. A antepenúltima sílaba termina em “e” ou “o”, a que segue um “m” ou um “n”. Exemplos dessas duplas grafias são: académico/acadêmico, anatómico/anatômico, António/Antônio, génio/gênio.

Não existem grafias duplas para todas estas palavras. Por exemplo, temos a palavra “cômoro” sem que exista “cómoro”. No entanto, o número destas palavras é muito reduzido.

Dissemos no artigo anterior que uma maneira de evitar estas grafias duplas seria eliminar os acentos em palavras esdrúxulas, o que poderá ter levado alguns leitores a pensar que o autor perdeu a razão ao admitir uma hipótese tão absurda. Veremos que tal já foi praticado e proposto por gente ilustre.

Por volta de 1960 uma instituição de Coimbra recebia um jornal ligado a um movimento polítivo brasileiro liderado pelo escritor Plínio Salgado. Esse jornal não acentuava palavras esdrúxulas. Não recordo que acentos usava. Sei que as palavras esdrúxulas não levavam acento.

O jornal explicava a omissão de acentos por causa das polémicas de que eram alvo.

Repare-se nas frases seguintes, em que as palavras esdrúxulas se escrevem sem acento.

Antonio é um melomano. Aprecia varios generos de musica. Da musica classica gosta principalmente de opera. Também é apreciador de musica sinfonica. É coleccionador de gravações de musica folclorica.

A falta dos acentos a que estamos habituados provoca uma espécie de irritação, mas depois habituamo-nos. Era o que acontecia a quem lia o referido jornal brasileiro. Ao fim de um certo tempo quase não se dava pela falta dos acentos

Em 1967 realizou-se em Coimbra o I Simpósio Luso-Brasileiro sobre a Língua Portuguesa Contemporânea. Uma das suas conclusões foi a conveniência de se abolirem os acentos.

A oralidade precede a escrita. Por outras palavras, uma língua é falada antes de ser escrita. Para um analfabeto a língua é oralidade. Existem analfabetos que usam razoavelmente bem a língua sem a saber escrever. Há utentes da língua que não usam acentos por não os considerarem indispensáveis à leitura e à compreensão de textos escritos. É esta a argumentação que pode fundamentar a eliminação de acentos.

Continuaremos a falar da eliminação de acentos noutro artigo. Por hoje é melhor ficar por aqui porque esta matéria é de digestão difícil.

João Manuel Maia Alves
publicado por João Manuel Maia Alves às 15:16
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Esdrúxulas com divergências (3)

Vimos que o acordo ortográfico estabelece ortografias duplas para um certo grupo de palavras esdrúxulas ou proparoxítonas. Estão bem identificadas tais palavras. A antepenúltima sílaba termina em “e” ou “o”, a que segue um “m” ou um “n”. Vimos também que algumas esdrúxulas são aparentes.

Exemplos dessas duplas grafias são: académico/ acadêmico, anatómico/anatômico, António/Antônio, génio/gênio. Nos dois últimos casos trata-se esdrúxulas aparentes. Nas grafias duplas usa-se o acento circunflexo ou o acento agudo conforme a vogal respectiva é fechada ou aberta.

O acordo estabelece ortografias duplas para um pequeno número de palavras agudas e graves. Servem de exemplos bebé/bebê e ténis/tênis.

As ortografias duplas em esdrúxulas são mais numerosas. Atingem aproximadamente 1400 palavras. À volta de 30% destas, isto é, à roda de 420 palavras são esdrúxulas aparentes. Se o seu ditongo final fosse como tal considerado na divisão silábica, não levariam acento e, por isso, não criariam qualquer divergência. Em vez de “António” ou “Antonio” escreveríamos “Antonio”, como fazem os espanhóis.

Muita gente não gosta da solução encontrada. Vale, então, a pena enumerar e examinar as possibilidades de tratamento das palavras esdrúxulas que vão ter ortografia dupla. Estas são as quatro possibilidades de tratar a questão:

1) Acabar com os acentos
2) Usar sempre o acento agudo
3) Usar sempre a acento circunflexo
4) Adoptar a solução do acordo.

As três primeiras soluções dispensavam as ortografias duplas. Acabavam com as divergências.

Examinaremos em futuro artigo estas soluções o mais fria, factual e racionalmente possível, o que não costuma ser o caso quando esta questão é examinada.

João Manuel Maia Alves
publicado por João Manuel Maia Alves às 15:13
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Esdrúxulas com divergências (2)

Vimos que existem divergências nas actuais ortografias de Brasil e Portugal dalgumas palavras esdrúxulas ou proparoxítonas. Estão bem identificadas tais palavras. A antepenúltima sílaba termina em “e” ou “o”, a que segue um “m” ou um “n”. Servem de exemplos “cômodo” e “prêmio” na ortografia brasileira correspondentes a “cómodo” e “prémio” na ortografia portuguesa.

Vimos também que algumas esdrúxulas são aparentes. Como “prémio”, acabam num ditongo crescente.

O acordo ortográfico estabelece o seguinte para estas palavras:

Levam acento agudo ou acento circunflexo as palavras proparoxítonas, reais ou aparentes, cujas vogais tónicas/tônicas grafadas e ou o estão em final de sílaba e são seguidas das consoantes nasais grafadas m ou n, conforme o seu timbre é, respetivamente, aberto ou fechado nas pronúncias cultas da língua:
académico/ acadêmico, anatómico/anatômico, cénico/cênico, cómodo/cômodo, fenómeno/ fenômeno, género/gênero, topónimo/topônlmo; Amazónia/Amazônia, António/Antônio, blasfémia/blafêmia, fémea/fêmea, gémeo/gêmea, génio/gênio, ténue/tênue.

Traduzindo isto em linguagem mais corrente, se o “e” ou “o” da sílaba tónica é aberto leva acento agudo; se for fechado, leva acento cicunflexo. Quer dizer, existem grafias duplas para estes casos.

Do texto do acordo atrás citado consta a palavra “fémea”. Não a encontrei em nenhum dicionário. Também nunca a ouvi. Parece-me que no caso de “fêmea” não existe nenhuma ortografia dupla.

O texto do acordo está escrito na ortografia que ele estabelece. No caso de grafias duplas, as duas são usadas, com uma barra a separá-las. Assim, a Base X tem o titulo “Da acentuação das vogais tónicas/tônicas grafadas i e u das palavras oxítonas e paroxítonas”. Repare-se no par “tónicas/tônicas” deste título.

Continuaremos com este assunto, que tem muito para contar.

João Manuel Maia Alves
publicado por João Manuel Maia Alves às 08:17
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Domingo, 6 de Novembro de 2005

Esdrúxulas com divergências (1)

Continuemos a falar das palavras esdrúxulas ou proparoxítonas, isto é aquelas que, como “máquina” ou “série”, têm o acento tónico na antepenúltima sílaba.

Já vimos que há esdrúxulas aparentes. Terminam em ditongo crescente, como “ia” ou “ua”. Serve de exemplo de esdrúxula aparente a palavra “contínuo”.

Vimos também que as esdrúxulas levam sempre acento na sílaba tónica, a antepenúltima. Esse acento pode ser agudo ou circunflexo.

O acento duma palavra esdrúxula indica a sílaba tónica, mas tem outra função. Assim, em “sólido” indica que o “o” é aberto e em “sôfrego” que é fechado.

Existe um certo número de esdrúxulas com problemas. Estão bem identificadas. A antepenúltima sílaba termina em “e” ou “o”, a que segue um “m” ou um “n”. Serve de exemplo “sêmea”, “sê-me-a” na divisão silábica.

Neste grupo de palavras esdrúxulas existem divergências nas actuais ortografias de Brasil e Portugal. Os brasileiros escrevem “cômodo”, “tônico”, “polinômio”, “polêmica”, “higiênico” e “prêmio” ao passo que nos outros países se usam as grafias “cómodo”, “tónico”, “polinómio”, “polémica”, “higiénico” e “prémio”.

O que é que o acordo ortográfico estabelece para estas esdrúxulas com divergências?
É o que veremos noutro artigo.

João Manuel Maia Alves
publicado por João Manuel Maia Alves às 08:12
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Sábado, 5 de Novembro de 2005

Esdrúxulas reais e aparentes

O ultimo artigo fala de esdrúxulas reais e aparentes? Quando é que uma palavra é uma esdrúxula real? Quando é que é uma esdrúxula aparente?

Uma esdrúxula aparente termina com um ditongo crescente. Um ditongo é um conjunto de duas vogais que se pronunciam numa única emissão de voz, como, por exemplo “ói” em “dói” e “ão” em “mão”. Ditongos descrescentes são aqueles em que a primeira vogal é mais saliente que a segunda. Serve de exemplo “oi” “em moita”. Nos ditongos crescentes sucede o contrário – a segunda vogal sobressai relativamente à primeira.

O acordo ortográfico dá na sua Base XI vários exemplos de palavras esdrúxulas aparentes, isto é terminadas em ditongos crescentes: álea, náusea, etéreo, níveo, enciclopédia, glória, barbárie, série, lírio, prélio, mágoa, nódoa, exíguo, língua, vácuo, amêndoa, argênteo, côdea, Islândia, Mântua, serôdio, Amazónia, António, blasfémia, fêmea, gémeo, génio, ténue. Reparemos numa delas – “génio”, por exemplo. Se “io” é um ditongo, pronuncia-se numa só emissão de voz – caso contrário não era ditongo. Então “nio” é uma sílaba e a palavra é grave, não esdrúxula, e não deve levar acento. Na realidade, considera-se “nio” formado de duas sílabas: ni-o. Daqui resulta que “génio” é esdrúxula – esdrúxula aparente, mas esdrúxula e, sendo esdrúxula, necessita de acento.

Em português para a divisão de sílabas um ditongo crescente é dividido. “Domínio”, por exemplo, tem as sílabas “do-mí-ni-o”, o que faz da palavra uma esdrúxula. Um ditongo crescente é ditongo e não é. É ditongo na pronúncia. Não é ditongo para a divisão silábica. É e não é. Confuso? Bastante, mas é como é e não tem conserto.

Esdrúxulas reais são palavras que não são esdrúxulas aparentes, como, por exemplo , “matemática”, que tem a divisão silábica “ma-te-má-ti-ca”.

Em espanhol o ditongo crescente é tratado com muito mais lógica. Não é partido ao meio na divisão silábica. Por isso, não necessitam de acento palavras como “Antonio”, que tem o acento tónico na sílaba “to”. “Antonio” em espanhol é uma palavra grave. A palavra espanhola “policía” precisa de acento porque o acento tónico cai sobre o último “i”.

Se seguíssemos as regras do espanhol em relação a este assunto dos ditongos crescentes teríamos várias vantagens. Diga-se, aliás, que os espanhóis souberam tomar a tempo medidas quanto à ortografia de se lhes tirar o “sombrero” (chapéu em espanhol para quem não saiba). Se nós tivéssemos feito o mesmo no tempo oportuno teríamos evitado muitos problemas. Veremos isso em próximo artigo.

João Manuel Maia Alves
publicado por João Manuel Maia Alves às 08:26
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Sexta-feira, 4 de Novembro de 2005

Acentuação das palavras esdrúxulas

Palavras esdrúxulas ou proparoxítonas são as que têm o acento tónico na antepenúltima sílaba. Servem de exemplos “mérito” e “lâmpada”. Se dividirmos estas palavras em sílabas, temos respectivamente “mé-ri-to” e “lâm-pa-da”.

De acordo com a Base XI do acordo ortográfico, todas as palavras esdrúxulas levam acento, o que já acontece hoje. Isto aplica-se tanto às esdrúxulas reais como às aparentes.

Em futuro artigo aprenderemos a distinguir as esdrúxulas reais das aparentes.

A novidade – grande novidade - que o acordo introduz relativamente à acentuação das palavras esdrúxulas está numa disposição que a seguir se transcreve.

Levam acento agudo ou acento circunflexo as palavras proparoxítonas, reais ou aparentes, cujas vogais tónicas/tônicas grafadas e ou o estão em final de sílaba e são seguidas das consoantes nasais grafadas m ou n, conforme o seu timbre é, respetivamente, aberto ou fechado nas pronúncias cultas da língua:
académico/ acadêmico, anatómico/anatômico, cénico/cênico, cómodo/cômodo, fenómeno/ fenômeno, género/gênero, topónimo/topônlmo; Amazónia/Amazônia, António/Antônio, blasfémia/blafêmia, fémea/fêmea, gémeo/gêmea, génia/gênlo, ténue/tênue.

Parece confusa esta regra, escrita num estilo para entendidos? Em futuros artigos vamos trocá-la por miúdos, o que vai dar para pano para mangas e matéria para indispor muita gente.

Autor do artigo: João Manuel Maia Alves
publicado por João Manuel Maia Alves às 07:33
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Quinta-feira, 3 de Novembro de 2005

Acento diferencial

já vimos que o acordo ortográfico faz desaparecer os acentos das palavras “pára”, “péla”, “pélas”; “pélo”, “pólo” e “pólos”. São acentos diferenciais. O de “pólo” serve para distinguir esta palavra de “polo”, termo antigo com o significado de “pelo”.

O acordo esqueceu o trio “pêra” (nome de fruto), “péra” (palavra antiga que significa “pedra”) e “pera” (preposição antiga que significava o mesmo que “para”). Logicamente também deverão desaparecer os acentos de “pêra” e “péra”.

Depois de alterações introduzidas em Portugal e colónias em 1945 e no Brasil em 1971, o acento diferencial quase não existe. O acordo ainda reduz mais a sua ocorrência.

Depois de o acordo entrar em vigor o acento diferencial ficará reduzido a:

1) Acento obrigatório - no verbo “pôr” e em “pôde”
2) Acento facultativo - em “fôrma”, em “dêmos”, forma do conjuntivo do verbo “dar” e em palavras como “falámos”.

Não percebo a necessidade de acento em “dêmos” e em “fôrma”. O primeiro não se usa no Brasil ao contrário do que sucede em Portugal. O segundo só se usa no Brasil. Serão estes acentos o resultado de cedências mútuas como existem em todas as negociacões? Felizmente, são facultativos. Não espero usá-los.

Autor deste artigo: João Manuel Maia Alves
publicado por João Manuel Maia Alves às 09:14
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Quarta-feira, 2 de Novembro de 2005

Mais regras sobre acentos

Vejamos mais algumas regras de acentuação introduzidas pelo acordo ortográfico.

Mantém-se o acento circunflexo no verbo “pôr” para o distinguir da preposição “por”.

Mantém-se o acento na palavra “pôde”.

É facultativo o acento de “dêmos” (primeira pessoa do plural do presente do conjuntivo do verbo “dar”) ao passo que “demos” (primeira pessoa do plural do pretérito perfeito do mesmo verbo) não leva nenhum acento.

É facultativo o acento das palavra “fôrma” e “fôrmas”, substantivos, distintas de “forma” e “formas”, com “o” aberto, substantivos e formas do verbo “formar”.

Deixa de levar acento a palavra “pára”, forma do verbo “parar”; a frase “pára para descansar” passará a escrever-se “para para descansar”.

Deixam de levar acento as palavras “péla” e “pélas”; o acento servia para as distinguir de “pela” e “pelas”, contracções de “por” com “a” ou “as”.

Deixam de levar acento as palavras “pélo”, do verbo “pelar” e “pêlo”, substantivo; o acento servia para as distinguir de “pelo”, contracção de “por” com “o”.

Deixam de levar acento as palavras “pólo” e “pólos”; o acento servia para as distinguir de “polo” e “polos”, palavra antigas que significavam “pelo” e “pelos”.

Deixam de levar acento palavras como“crêem”, “lêem, “vêem”, etc. Passaremos a escrever “creem”, “leem, “veem”, etc. Não confundir “veem”(actualmente vêem) com “vêm”, que se pronuncia “vẽem” e é forma do verbo “vir”.

Estas regras merecem alguns comentários, que ficam para outro artigo.

Autor deste artigo: João Manuel Maia Alves
publicado por João Manuel Maia Alves às 08:31
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