Quarta-feira, 31 de Maio de 2006

Maiúsculas e minúsculas (2)

O acordo ortográfico estabelece que a letra maiúscula no início de palavras se usa nos seguintes casos:

a) Nos antropónimos (nomes de pessoas), reais ou fictícios: “Pedro Marques”; “Branca de Neve”,” D. Quixote”

b) Nos topónimos (nomes de lugares), reais ou fictícios: “Lisboa”, “Luanda”, “Maputo”, “Rio de Janeiro”; “Atlântida”, “Hespéria”

c) Nos nomes de seres antropomorfizados (isto é a que se atribuiu forma humana) ou da mitologia (deuses e heróis fabulosos da antiguidade): “Adamastor”; “Júpiter”

d) Nos nomes que designam instituições: “Instituto de Pensões e Aposentadorias da Previdência Social”

a) Nos nomes de testas e festividades: “Natal”, “Páscoa”, “Ramadão”, “Todos Os Santos”

f) Nos títulos de publicações que retêm o itálico: “O Primeiro de Janeiro”, “O Estado de São Paulo”; esta regra parece não fazer sentido, não se percebendo por que razão não se aplica a todas as publicações

g) Nos pontos cardeais ou equivalentes, quando designam regiões: “Nordeste”, por nordeste do Brasil, “Norte”, por norte de Portugal, “Meio-Dia”, pelo sul da França ou de outros países, “Ocidente”, por ocidente europeu, “Oriente”, por oriente asiático

h) Em siglas, simbolos ou abreviaturas internacionais ou nacionalmente reguladas com maiúsculas, iniciais ou mediais ou finais ou o todo em maiúsculas: “FAO”,” NATO”, “ONU”; “H2O”

i) Opcionalmente, em palavras usadas reverencialmente, aulicamente (isto é dum modo próprio de palácios reais ou de nobres) ou hierarquicamente (“D.”, “Dom”, “Vossa Majestade”, “Sua Alteza Real”, “Eu” (rei referindo-se a si próprio); “V. Eminência”, “Magnífico Reitor”; estes exemplos não constam do texto do acordo; são da responsabiliade do autor do artigo), em início de versos, em designações de lugares: (“rua” ou “Rua da Liberdade”,”largo” ou “Largo dos Leões)”, de templos (“Igreja” ou “Igreja do Bonfim”, “templo” ou “Templo do Apostolado Positivista”), de edifícios (“palácio” ou “Palácio da Cultura”, “edifício” ou “Edifício Azevedo Cunha”)

Acrescenta o acordo que as disposições sobre os usos das minúsculas e maiúsculas não obstam a que obras especializadas observem regras próprias, provindas de códigos ou normalizações específicas (terminologias geológica, botânica, zoológica, etc.), provenientes de entidades científicas ou normalizadoras, reconhecidas internacionalmente.

O acordo estabelece que se usa maiúscula no início de cada verso. No entanto, alguns poetas usam, à espanhola, minúscula no início de cada verso quando a pontuação o permite. Repare-se nos seguintes versos de António Feliciano de Castilho:

Aqui, sim, no meu cantinho,
vendo rir-me o candeeiro,
gozo o bem de estar sozinho
e esquecer o mundo inteiro

Impressiona mal ler textos em que maiúsculas e minúsculas são usadas indevidamente. Por exemplo na frase “Ele aspira a ser Presidente” não há nenhuma razão para se escrever “Presidente” com maiúscula. Também parece de mau gosto escrever nomes de países ou de pessoas com minúsculas. No entanto, há quem viole estas regras sem nos escandalizarmos, dado o prestígio do autor ou já nos termos habituado à sua muito original ortografia. É o caso de José Saramago, que num dos seus romances escreveu “tribunal internacional da haia”. Para nós que não somos prémios Nobel e a quem não se perdoa aquilo que Saramago impõe aos seus editores, é melhor não inventar regras e seguir as que constam de obras escritas por autores de reconhecida competência.

João Manuel Maia Alves
publicado por João Manuel Maia Alves às 08:49
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Quarta-feira, 24 de Maio de 2006

Maiúsculas e minúsculas (1)

Vamos ver o que o acordo ortográfico estabelece quanto ao uso de maiúsculas e minúsculas no início de palavras.

Escrevem-se com minúscula os nomes dos dias, meses, estações do ano: “segunda-feira”, ”outubro”, ” primavera”. Existe nesta regra uma novidade. Hoje escrevemos “5 de Outubro de 1910” e “o primeiro domingo de Maio”. Uma vez em vigor o acordo, escreveremos “5 de outubro de 1910” e “o primeiro domingo de maio”.

Esta mudança é de fazer muito conservador ficar sem pinga de sangue. No entanto, haverá alguma razão válida para se escrever com minúscula os dias da semana e com maiúscula os nomes dos meses? Mesmo “domingo” e “sábado”, dias santos de importantes religiões, se escrevem com minúscula. Consultem um jornal aí do começo do século e verão que então se escrevia com minúscula os nomes dos meses.

Temos de ser coerentes. Não há razão para escrever com minúscula os dias da semana e com maiúscula os nomes dos meses. Não há razão especial para se escreverem com maiúscula nomes de dias da semana, meses e estações do ano. Palmas para esta norma.

Nos nomes de livros o primeiro elemento dever ser escrito com maiúscula, mas os seguintes podem ser escritos com minúsculas salvo os nomes próprios, tudo em grifo ou itálico. Como este blogue não permite itálico, colocamos entre parêntese o que devia estar em itálico. Assim, temos “O Senhor do Paço de Ninães” ou “O senhor do paço de Ninães”, “Menino de Engenho” ou “Menino de engenho”, “Arvore e Tambor” ou “Arvore e tambor”.

Também se usa minúscula nos usos de “fulano”, ”sicrano” e ”beltrano”.

Os nomes dos pontos cardeais escrevem-se com minúsculas, mas não as suas abreviaturas: “norte”, “sul”, mas “SW” (sudoeste).

Diz o acordo que se usa minúscula nos axiónimos (formas de tratamento cortês ou indicativos de cargo elevado) e hagiónimos (designações de nomes sagrados). Opcionalmente, neste caso, pode-se usar maiúscula. O texto do acordo dá os seguintes exemplos: “senhor doutor Joaquim da Silva”, “bacharel Mário Abrantes”, “o cardeal Bembo”; “santa Filomena” (ou “Santa Filomena”). Quer isto dizer que não poderemos escrever “Doutor Álvaro Pires” ou “o Cardeal Clemente Gomes”? É o que parece.

Os nomes que designam domínios do saber, cursos e disciplinas podem escrever-se com maiúscula ou minúscula: “português” (ou “Português”), “matemática” (ou “Matemática”); “línguas e literaturas modernas” (ou “Línguas e Literaturas Modernas”).


João Manuel Maia Alves
publicado por João Manuel Maia Alves às 09:59
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Quarta-feira, 17 de Maio de 2006

Apóstrofo (2)

No último artigo vimos o que o acordo ortográfico designa como os casos em que se usa o apóstrofo.

Com o devido respeito pelos técnicos que conceberam e redigiram o acordo, não é verdade que sejam os casos de emprego do apóstrofo. Há mais outros dois, que vamos indicar.

O apóstrofo pode usar-se em versos para assinalar a supressão duma vogal como, por exemplo, em “esp’ rança” (esperança) e “c’ roa “ (coroa).

Usa-se também o apóstrofo na reprodução de formas da linguagem corrente. Exemplos: “’tᔠ(está), “T´ Chico” (Tio Chico), “c’ os diabos” (com os diabos).

Outro comentário suscita o texto do acordo relativamente ao apóstrofo.

Vimos que o acordo estabelece a eliminação no interior de certos compostos do “e” da preposição “de” em combinação com substantivos. Serve de exemplo “borda-d’água”. A ortografia vigente em Portugal desde 1945 estabelece a eliminação do “e” só quando ele não é pronunciado quer em Portugal quer no Brasil, ao passo que a brasileira simplesmente fala de supressões consagradas pelo uso.

Vamos ver uma palavra em que o “e” se pronuncia no Brasil ao contrário do que acontece em Portugal: “mão-de-obra”. Parece, no entanto, que ninguém que diz “mão-d’ obra” tem objecções à ortografia “mão-de-obra”.

É perfeitamente aceitável o texto do acordo relativamente aos compostos acabados de referir. Não é matéria que justifique mais do que nele está escrito.

João Manuel Maia Alves
publicado por João Manuel Maia Alves às 08:28
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Terça-feira, 9 de Maio de 2006

Apóstrofo

Vamos ver em que casos o acordo ortográfico estabelece o uso do apóstrofo.

Usa-se o apóstrofo em expressões como “d' Os Lusíadas”, “d' Os Sertões”; “n' Os Lusíadas”, “n' Os Sertões”, “pel' Os Lusíadas”, “pel' Os Sertões”. Numa expressão como “d' Os Lusíadas” a preposição “de” contrai-se com o conjunto “Os Lusíadas” e não somente com o artigo “Os”. Esta a justificação do apóstrofo nestes casos.

Nestas expressões pode-se usar as preposições sem eliminação de letras se o exigir razão especial de clareza, expressividade ou ênfase. Por outras palavras, as expressões referidas podem escrever-se “de Os Lusíadas”, “em Os Lusíadas”, “por Os Lusíadas”, etc.

Pode usar-se o apóstrofo em contracções ou aglutinações com formas que se escrevem com maiúscula por motivo de realce tais como “d'Ele”, “n'Ele”, “d'Aquele”,”n'Aquele”, ”d'O”, “n'O”, “pel'O”, “m'O”, “t'O”, “lh'O”, “d'Ela”, “n'Ela”, “d'Aquela” ,”n’Aquela”, “d'A”, “n'A”, “pel'A”, “m'A”, “t'A”, “lh'A”. O segundo elemento refere-se, conforme seja masculino ou feminino, a Deus, a Jesus. à mãe de Jesus, à Providência, etc. Exemplos de frases com este uso do apóstrofo: “confiamos n'O que nos salvou”; “esse milagre revelou-m'O”; “está n'Ela a nossa esperança”; “pugnemos pel' A que é nossa padroeira”.

Emprega-se o apóstrofo nas ligações de “santo” e “santa” a nomes de santos, quando importa representar a e1iminação das vogais finals “o” e “a”: “Sant´Ana”, “Sant'Iago”, etc. É, pois, correcto escrever “Ca1çada de Sant’Ana”, “Rua de Sant'Ana”; “culto de Sant'Iago”, “Ordem de Sant'Iago”. Mas, se as ligações deste género, como é o caso destas mesmas “Sant'Ana” e “Sant'Iago”, se tomam unidades perfeitas em que se perdeu a noção de composição, aglutinam-se os dois elementos: “Fulano de Santana”, “ilhéu de Santana”, “Santana de Parnaíba”; “Fulano de Santiago”,”ilha de Santiago”, “Santiago do Cacém”.

Em paralelo com a grafia “Sant'Ana” e semelhantes emprega-se também o apóstrofo nas ligações de duas formas nominais quando é necessário indicar que na primeira se elimina um “o” final: “Nun’Álvares”, “Pedr'Eanes”.

Note-se que nos casos referidos as escritas com apóstrofo, indicativas de eliminação de vogal, não impedem escritas sem apóstrofo: “Santa Ana”, “Nuno Álvares”, ”Pedro Álvares”, etc.


Emprega-se o apóstrofo para assinalar, no interior de certos compostos. a eliminação do “e” da preposição “de”, em combinação com substantivos:
“borda-d’água”, “cobra-d’água”, “copo-d'água”, “estrela-d'alva”,
“galinha-d'água”, “mãe-d'água”, “pau-d’água”, “pau-d'alho”,
“pau-d'arco”, “pau-d’óleo”.


João Manuel Maia Alves
publicado por João Manuel Maia Alves às 10:01
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Quarta-feira, 3 de Maio de 2006

Hífen (16)

O acordo ortográfico estabelece que não se usará hífen em palavras com prefixo terminado em vogal e o segundo elemento começado por erre ou esse. Assim teremos: “antirreligioso”, “”antissemita”,”contrarregra”, ”contrassenha”,”cosseno”, “extrarregular”, ”infrassom”, ”minissaia”, ”biorritmo,” “biossatélite”,”eletrossiderurgia”(sem cê quando o acordo entrar em vigor), “microssistema”, “microrradiografia”.

Existe nesta regra alguma novidade. Actualmente escreve-se “anti-semita”. Com o acordo passará a escrever-se “antissemita”. Generaliza-se o que já é comum em palavras deste tipo dos domínios científico e técnico. Hoje já se escreve, por exemplo, “cosseno” e “microssistema”.

Vimos que o acordo ortográfico não permite a ortografia “microondas”. Se o prefixo e o segundo elemento começassem por vogais diferente, não se usaria o hífen. Quer isto dizer que teremos as ortografias “antiaéreo”, “coeducação”, “extraescolar”, “aeroespacia1”, “autoestrada”, “autoaprendizagem”, “agroindustrial”, “hidroelétrico” (só com um cê quando o acordo estiver em vigor), “plurianual”. Também aqui se generalizará uma prática dos domínios técnico e científico.

Vejamos agora o hífen em palavras com sufixo. Um sufixo coloca-se depois duma palavra para formar uma outra. Assim, colocamos “mente” depois de “fácil” e temos a palavra “facilmente”.

O hífen em palavras com sufixo só se usa quando ele é de origem tupi-guarani e representa uma forma adjectiva, como “açu”, “guaçu” e “mírim”e quando o primeiro elemento acaba em vogal acentuada graficamente ou quando a pronúncia exige a distinção gráfica dos dois elementos: “amoré-guaçu”,”anajá-mírim”,”andá-açu”,”capim-açu”, “Ceará-Mírim”. “Açu” e “guaçu” significam “vasto”, “grande” ao passo que “mirim” quer dizer “pequeno”. Tupi-guarani é uma família de línguas sul-americanas faladas por povos indígenas.

Assim termina a exposição, em dezasseis artigos, do que o acordo ortográfico estabelece sobre o uso do hífen . Não é assunto fácil. Merece um artigo de síntese. Tem de ser preparado com cuidado. Por isso, talvez não seja o próximo.

João Manuel Maia Alves
publicado por João Manuel Maia Alves às 16:30
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