Segunda-feira, 29 de Agosto de 2005

Alterações ortográficas no Brasil em 1971

Em 1971 o governo brasileiro do Presidente Emílio Médici introduziu alterações na ortografia usada no Brasil, que é, como se sabe, diferente da de Portugal e suas ex-colónias de África e da Ásia.

Uma das alterações consistiu na eliminação do acento grave e do acento circunflexo nos moldes daquela que dois anos mais tarde Marcelo Caetano viria a introduzir em Portugal e seus domínios ultramarinos de então.

Outra alteração consistiu na quase eliminação no acento circunflexo diferencial. Antes desta alteração escrevia-se no Brasil “côrte” com acento para se diferenciar de “corte” com “o” aberto. Escrevia-se “êsse” com acento circunflexo para se distinguir de “esse”, nome da letra “s”. O acento diferencial não foi eliminado na palavra “pôde”.

O acento circunflexo diferencial já tinha sido abolido em Portugal em 1945 e era responsável por à volta de 70% das diferenças de ortografia entre Portugal e o Brasil.
O acento diferencial parece muito lógico. Sem ele podemos ter de descobrir pelo contexto se um e ou o é aberto ou fechado, mas obriga a pessoa a ser enciclopédica. “Nêle” escrevia-se assim porque existe “nele” com “e” aberto. É o nome duma antiga moeda francesa e duma variedadede de arroz na Índia. Imagine-se uma pessoa dos nossos dias a ter que saber da existência da palavra “nele” com “e” aberto para decidir sobre o uso dum acento noutra palavra!

O governo brasileiro deu às editoras de livros e publicações quatro anos para o cumprimento da lei que introduziu estas alterações.

Curiosamente esta lei do governo brasileiro apoia-se num parecer conjunto da Academia Brasileira de Letras e da Academia das Ciências de Lisboa, de 22 de Abril de 1971. As alterações ortográficas introduzidas no Brasil em 1971 e em Portugal e colónias em 1973 foram com certeza concertadas entre as autoridades dos dois países. Não houve um tratado internacional entre Portugal e Brasil, assinado com toda a solenidade e pompa, estabelecendo as alterações, mas deve ter havido acordo para medidas legislativas convergentes. Na prática houve um acordo ortográfico, que funcionou com total eficácia. Isto prova que os acordos ortográficos não estão fatalmente condenados ao fracasso.

Quem parece ter ficado muito contente, apetece dizer vingado, com a eliminação do acento diferencial foi o Ministro da Educação do Brasil de então, Jarbas Passarinho, que num exame escreveu sem acento “toda” com “o” fechado, coisa que os professores não perdoaram. O jovem Jarbas, apesar de Passarinho, tinha esquecido que existe “toda” com “o” aberto, nome dum pássaro vulgar na América do Sul. E você sabia de tal pássaro? Foi muito bem eliminado o acento diferencial. Palmas para os que dum e doutro lado do Atlantico lhe puseram merecido fim!



Autor do artugo: João Manuel Maia Alves
publicado por João Manuel Maia Alves às 08:19
link do post | comentar | favorito
|

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Maio 2010

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
10
11
12
13
14
15

16
17
18
19
20
21
22

23
24
25
26
27
28
29

30


.posts recentes

. Convite

. Acordos de 1990 e 1945

. Boas notícias

. Notícias do acordo ortogr...

. Ortografia – uma convençã...

. Reformas ortográficas

. São Tomé e Príncipe ratif...

. Contrações incorretas

. Guiné-Bissau e Acordo Ort...

. Cimeira e acordo ortográf...

.arquivos

. Maio 2010

. Março 2008

. Novembro 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Abril 2006

. Março 2006

. Fevereiro 2006

. Janeiro 2006

. Dezembro 2005

. Novembro 2005

. Outubro 2005

. Setembro 2005

. Agosto 2005

blogs SAPO

.subscrever feeds