Quarta-feira, 31 de Agosto de 2005

Viagem a 1929 (2)

Continuemos a nossa viagem a 1929, reparando nalgumas ortografias do “Almanaque Lello” desse ano.

--- Ponto de interrogação invertido ---

No almanaque encontra-se esta pergunta “¿Podem as fábricas não desfear a paisagem?”.

Há muito que o ponto de interrogação invertido, usado no início duma pergunta, acabou em português. A mesma sorte teve o ponto de exclamação invertido. Em espanhol, pelo contrário, continuam a ser usados.

Às vezes ainda se vê em Portugal o ponto de exclamação invertido. Um fulano vai a Madrid e vê o anúncio de “¡¡¡Grandes rebajas!!!” e toca a imitar os espanhóis. Assim aparecem os anúncios de “¡¡¡Sensacionais saldos!!!” e outros semelhantes.

--- Nomes de países e cidades ---

-“Moscou” era no almanaque a capital da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Hoje usa-se “Moscovo” em Portugal. No Brasil continua-se a usar “Moscou”. Lá e cá o habitante da cidade chama-se “moscovita”.
-“Pekim” – Hoje Pequim
-“Cambodge” – Hoje temos “Cambodja” e “Camboja”
-“Berne” – Hoje “Berna”
-“Amsterdam” – Também aparece no almanaque “Amsterdão”. Hoje usamos “Amesterdão” e “Amsterdão”. No Brasil usa-se “Amsterdam” e “Amesterdã”.
-“Yugo-eslávia” – Hoje usamos quase exclusivamente em Portugal a palavra “Jugoslávia” – ou usávamos porque o país desapareceu. No Brasil mantiveram-se sempre mais agarrados a “Iugoslávia” ou à variante “Iugo-eslávia”.
-“Roménia” e “România” – Aparecem as duas palavras; a segunda caiu em desuso.
-“Tchéco-eslováquia” – Não é engano. O acento agudo existe mesmo no almanaque, como existe igualmente em “tchéco”, palavra também constante na publicação. Hoje escrevemos e dizemos em Portugal “Checoslováquia” – poucas vezes porque o país já não existe. Também no Brasil se usa“Checoslováquia”. Durante muitos anos preferia-se no Brasil “Tchecoslováquia” e “Tcheco-eslováquia”, formas que tinham opositores. Os dicionários brasileiros nem sequer registavam a palavra “checo”. Parece que “Checoslováquia” e “checo” são agora as formas preferidas no Brasil.
-“Afghanistan” –Hoje dizemos e escrevemos “Afeganistão”. No almanaque também aparece o adjectivo feminino “afghã”; hoje escrevemos “afegão”no masculino e “afeg㔠no feminino.
-“Teheran”– Em Portugal usamos hoje “Teerão”. No Brasil usam “Teerã”, que parece ser uma forma mais de harmonia com “Teheran”.
- “Uruguay” e “Paraguay” – Estes são os nomes destes países na sua língua oficial – o espanhol. Hoje escrevemos “Uruguai” e “Paraguai”.
-“Egito” – Quando “Egipto” passar a “Egito” com o acordo ortográfico, estaremos a voltar a uma ortografia já usada, o que não impedirá os protestos dos contestatários de qualquer mudança.
-“Bahia” – Nome duma cidade e dum estado do Brasil. Mantém-se esta ortografia com base numa decisão da Academia Brasileira de Letras aplicável a nomes de localidades brasileiras muito antigos e consagrados pelo uso. Nem todos no Brasil concordam com esta ortografia, que não se usa em Portugal. No entanto, de “Bahia” forma-se o substantivo e adjectivo “baiano”, não “bahiano” – também de acordo com a mesma decisão.

--- Estrangeirismos ---

Do almanaque constam muitos estrangeirismos. No artigo anterior vimos vários referentes ao desporto que foram, entretanto, aportuguesados. Quem contesta as formas portuguesas encontradas para substituir essas palavras estrangeiras?

“Chauffeur” é um dos estrangeirismos que se pode encontrar no almanaque. Passariam mais de setenta anos sem a palavra dar lugar em Portugal a “chofer”. No Brasil esta palavra usa-se há décadas. Em Portugal a palavra foi aportuguesada só há três ou quatro anos quando o chamado Dicionário da Academia acolheu a forma “chofer”. Já não era sem ser tempo.

Use sem complexos “chofer”, “dossiê”, “robô” e outras palavras recentemente aportuguesadas em Portugal. Os aportuguesamentos encontram sempre resistência por mais lógicos que sejam.

--- Nomes de reis ---

No almanaque constam os nomes de vários reis. Uns foram traduzidos. É o caso de Jorge V, Eduardo VII e Alexandra, da Grã-Bretanha, Alberto I, da Bélgica e Afonso (Alfonso em espanhol) XIII, da Espanha. Outros ficaram como no original, casos de Wilhelmine, da Holanda, Victor Emmanuel III, de Itália e Haakon V da Noruega.


Autor do artigo: João manuel Maia Alves
publicado por João Manuel Maia Alves às 08:14
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