Quinta-feira, 1 de Setembro de 2005

Topónimos de línguas estrangeiras

Continuemos com a discussão do acordo ortográfico.

Recomenda o acordo na sua Base I que os topónimos (nomes de lugares) de línguas estrangeiras se substituam, tanto quanto possível, por formas portuguesas quando estas sejam antigas e ainda vivas ou quando entrem, ou possam entrar, no uso corrente. O texto do acordo dá os seguintes exemplos: Anvers, substituído por Antuérpia; Cherbourg, por Cherburgo; Garonne, por Garona; Genève, por Genebra; Jutland, por Jutlândia; Milano, por Milão; München, por Munique; Torino, por Turim; Zürich, por Zurique.

Trata-se duma recomendação. Se alguém escrever, por exemplo, Genève em vez de Genebra, não se poderá dizer que cometeu um erro. No entanto, é difícil de perceber que pessoas cultas usem Genève, quanto temos a forma portuguesa antiga Genebra e porque a cidade tem, pelo menos, três nomes na Suíça, país a que pertence. Esses três nomes são Genève em francês, Genf em alemão e Ginebra em italiano. Como a Suíça tem outra língua oficial além do francês, do alemão e do italiano, se calhar, a cidade ainda tem mais um nome no país a que pertence.

Existem algumas divergências entre os vários países de língua portuguesa no aportuguesamento de nomes de países e cidades de outras línguas. Aqui vão alguns exemplos:

1) Em Angola e penso que também noutros países de língua portuguesa da África Ocidental a Costa do Marfim é comummente designada pelo seu nome em francês, ou seja Côte d’ Ivoire, sendo os seus habitantes chamados ivornianos
2) No Brasil a capital da Rússia é conhecida por Moscou, nome que, como vimos num dos artigos da série “Viagem a 1929”, já se usou em Portugal
3) Em Moçambique a Tanzânia é quase sempre designada por Tanzania, com acento tónico no i
4) Médio Oriente é Oriente Médio no Brasil
5) No Brasil Iugoslávia é forma preferida relativamente a Jugoslávia; praticamente desapareceu a primeira forma em Portugal, onde, como vimos, era usada em 1929
6) No Brasil usam Amersterdã e Irã, ao passo que nós temos Amersterdão e Irão; li a afirmação dum linguísta brasileiro de que Portugal deixou de usar Irã para passar a Irão, introduzindo dessa amneira uma divergência
7) No Brasil escrevem Nova York; em Portugal esta forma também se usa, mas Nova Iorque é mais vulgar
8) Havai é no Brasil Havaí com acento no i
9) No Brasil escrevem Los Ângeles, o que corresponde à pronúncia que se ouve em Portugal, mas os portugueses não colocam nenhum acento na segunda palavra do nome da cidade.

Nos dois artigos da série “Viagem a 1929” vimos algumas destas divergências, além de outras que aqui não mencionamos.

Não exageremos estas divergências. Elas existem, mas na grande maioria dos nomes de outras línguas de países e cidades que têm formas portuguesas não existe diferença entre os países lusófonos. Em todos London é Londres, La Habana, capital de Cuba, é chamada Havana, etc.

Nunca deverá existir total convergência nesta questão do aportuguesamento de topónimos de língua estrangeiras. Por exemplo, no caso do nome da capital da Rússia, os portugueses trocaram Moscou por Moscovo. Por que razão haveriam os brasileiros de abandonar esta forma que nós pusemos de lado? Certamente vão continuar a dizer e escrever Moscou.

Nalguns ou em todos os países africanos de língua oficial portuguesa há nomes de localidades que pertencem a línguas africanas. Não é fácil aportuguesar alguns. É o caso de Chókwè em Moçambique. Por outro lado, há o desejo de dar importância às línguas africanas; por isso, há topónimos escritos nesses países com a ortografia dos idiomas a que pertencem. É assim que em Angola vemos a palavra Kwanza, que nos tempos antes da independência de Angola, aprendemos em Portugal a escrever Cuanza, forma que se pode ler na imprensa portuguesa.

É assunto interessante este do aportuguesamento de topónimos de línguas estrangeiros. São quase inevitáveis algumas divergências, mas não são muito numerosas. O acordo estabelece muitas regras a seguir, mas neste ponto, sensatamente, ficou-se por recomendações.


Autor do artigo: João Manuel Maia Alves
publicado por João Manuel Maia Alves às 08:53
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