Sábado, 10 de Setembro de 2005

Eliminação de consoantes mudas (2)

A eliminação de cês e o pês mudos em palavras como “actor” e “baptismo” deixa muito boa gente num estado de angústia, como se o mundo estivesse para acabar. A questão merece ser estudada com a serenidade que tem faltado à maioria dos críticos do acordo ortográfico e que seria de esperar em pessoas de alto nível intelectual.

Muitos opõem-se à eliminação das consoantes mudas porque são contra toda a alteração ortográfica. Numa reunião muito concorrida que se realizou em Lisboa a propósito do acordo ortográfico uma jovem senhora muito intelectual decretou que em Portugal a palavra “projecto” tem de ter um “c” . Pessoas assim são imobilistas e opõem-se a qualquer mudança. Esta senhora, se vivesse em 1910, talvez se opusesse a “lírio” em vez de “lyrio” e “abismo” em vez de “abysmo”. Por incrível que nos pareça hoje, houve quem dissesse, lá por esses anos, que sem o “y” desaparece a noção de profundidade em “abismo” e “lírio” não tem graça.

Gente há que se opõe a alterações ortográficas por achar que a que usamos atingiu um nível de perfeição insuperável. Uma escritora de reconhecidos méritos mandou dizer na citada reunião que só a palavra “dançar” precisa de correcção; deveria escrever-se “dansar”.

Tudo isto é um completo disparate e deveria constar duma antologia de asneiras. Toda a ortografia tem muito de artificial e convencional. Nenhuma é perfeita e ainda neste artigo mostraremos exemplos eloquentes de deficiências da ortografia que usamos em Portugal.

Vejamos a razão de escrevermos “ator” no Brasil e “actor” em Portugal. Em 1911 fez-se uma excelente reforma ortográfica, que, mesmo assim, recebeu os maiores insultos. Infelizmente, Portugal aplicou a reforma esquecendo o Brasil. Isso abriu a porta a alterações unilaterais nos dois países. Em 1931 os dois celebraram um acordo com um texto muito breve. Quando se chegou à altura de ser aplicado, verificou-se que havia interpretaçãos diferentes do que se mantinha e do que se abolia. Foi assim que surgiram grafias diferentes como “ator” e “actor”. Felizmente, o acordo de 1991, tem um texto detalhado que elimina ou minimiza a margem para interpretações diferentes.

Qual a justificação para consoantes mudas como em “director” ou “adoptar”? Uma das razões é que a consoante muda serve para abrir a vogal anterior. Faz de acento grave, como se escrevêssemos “dirètor” ou “adòtar”.

Se era esta a função, então falhou redondamente em palavras como “actuar”, “actuação”, “accionista”, “actuário”, “actualidade” e "exactidão". Realmente, na pronúncia portuguesa destas palavras a vogal antes do “c” não é aberta. Por exemplo, dizemos em Portugal “âtuar” e não “àtuar”.

Há aqui duas conclusões a tirar. A primeira é que a ortografia que usamos não é perfeita e, se não é perfeita, pode ser mudada. A segunda é que é falsa uma das justificações para manter consoantes mudas. Estão lá para abrir vogais e às vezes não o conseguem.

Preparem-se para ler em próximos artigos afirmações capazes de revoltar e obrigar a pegar em armas os amantes dos cês e pês que não se pronunciem.

Autor do artigo: João Manuel Maia Alves
publicado por João Manuel Maia Alves às 09:00
link do post | comentar | favorito
|

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Maio 2010

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
10
11
12
13
14
15

16
17
18
19
20
21
22

23
24
25
26
27
28
29

30


.posts recentes

. Convite

. Acordos de 1990 e 1945

. Boas notícias

. Notícias do acordo ortogr...

. Ortografia – uma convençã...

. Reformas ortográficas

. São Tomé e Príncipe ratif...

. Contrações incorretas

. Guiné-Bissau e Acordo Ort...

. Cimeira e acordo ortográf...

.arquivos

. Maio 2010

. Março 2008

. Novembro 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Abril 2006

. Março 2006

. Fevereiro 2006

. Janeiro 2006

. Dezembro 2005

. Novembro 2005

. Outubro 2005

. Setembro 2005

. Agosto 2005

blogs SAPO

.subscrever feeds