Domingo, 11 de Setembro de 2005

Catástrofes não confirmadas

Sempre que há alterações ortográficas, surgem os profetas de desgraça anunciando terríveis catástrofes em consequência das novas regras. Sendo muitos professores universitários, escritores e líderes de opinião, admiramo-nos de nunca ter dado pelo seu zelo em defesa da língua, vítima constante dos maiores atropelos. A sua preocupação parece resumir-se a evitar que se ponha de lado alguma letra ou acento e não é mais do que imobilismo disfarçado de prudência.

Vejamos algumas alterações ortográficas do passado que poderiam ter tido consequências funestas.

Noutros tempos escreveu-se “prègar um sermão” e “pregar um prego”. Desapareceu o acento grave de “prègar”. Aconteceu alguma coisa terrível? Não. Ninguém diz em Portugal “pr’ gar um sermão”.

Desapareu o acento grave de “mòlhada”. Aconteceu alguma coisa grave? Não. Distingimos pelo contexto a pronúncia de “molhada”. Abrimos o “o” em “tudo à molhade e fé em Deus”, ao contrário do que acontece em “camisa molhada” .

Outros casos poderíamos apresentar de eliminação sem problemas do acento grave – em “jàmais”, por exemplo.

Eliminámos em Portugal o trema em palavras como “freqüente” ou “agüentar”. O que é que se perdeu? Nada. É verdade que aqui há uns anos ouvimos locutores da rádio e da televisão pronunciar “arguido” com a sequência “gui” pronunciada como em “guita”. Ao contrário do que agora sucede, a palavra era pouco conhecida. Hoje só se ouve a pronúncia correcta.O que espanta é que não haja em estações como a RTP ou a Rádio Renascença pessoas que evitem certos erros ou rapidamente os corrijam.

Em “fluidez”, “constituição” e outras palavras a sequência “ui” não é ditongo. Pronuncia-se “u-i”. Noutros tempos colocava-se um trema sobre o “i” para indicar que não havia ditongo. Acabou-se com este trema. “Constituïção” passou a “constuituição”, sem se perder absolutamente nada.

Felizmente, as catástrofes previstas pelos adversários das reformas ortográficas não se confirmaram no passado e não devem ocorrer no futuro, mas podem ter a certeza que se oporão a qualquer mudança. São do contra porque são do contra. Por outro lado, certas letras que se mantiveram não conseguiram evitar aquilo que tinham por missão impedir, mas isso é assunto para outro artigo.

João Manuel Maia Alves
publicado por João Manuel Maia Alves às 09:36
link do post | comentar | favorito
|

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Maio 2010

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
10
11
12
13
14
15

16
17
18
19
20
21
22

23
24
25
26
27
28
29

30


.posts recentes

. Convite

. Acordos de 1990 e 1945

. Boas notícias

. Notícias do acordo ortogr...

. Ortografia – uma convençã...

. Reformas ortográficas

. São Tomé e Príncipe ratif...

. Contrações incorretas

. Guiné-Bissau e Acordo Ort...

. Cimeira e acordo ortográf...

.arquivos

. Maio 2010

. Março 2008

. Novembro 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Abril 2006

. Março 2006

. Fevereiro 2006

. Janeiro 2006

. Dezembro 2005

. Novembro 2005

. Outubro 2005

. Setembro 2005

. Agosto 2005

blogs SAPO

.subscrever feeds