Segunda-feira, 22 de Agosto de 2005

Polémicas ortográficas

Quando se fala em alterações ortográficas, surgem sempre pessoas manifestando a sua oposição, em muitos casos com o entusiasmo e o fanatismo com que alguém se junta a uma cruzada ou a uma guerra de guerrilhas. Foi assim com o acordo ortográfico de 1990. Aconteceu o mesmo com alterações anteriores.

A Drª Edite Estrela mostra uma certa compreensão e tolerância por este fenómeno. Citemos um parágrafo do seu magnífico livro “A Questão Ortográfica – Reforma e Acordos da Língua Portuguesa”: “As mudanças ortográficas interferem com os hábitos de escrita de cada falante; mexem com automatismos adquiridos em anos de prática; perturbam as rotinas e geram contestação”.

Seja, mas custa a perceber o exagero de certas reacções de pessoas cultas. Por exemplo, em tempos idos o académico brasileiro Carlos de Laet ridicularizou a mudança de “kágado” para “cágado”. Também em tempos que já lá vão, o escritor Teixeira de Pascoaes mostrava saudades por duas “perdas” que iam ocorrer. Referia-se ao desaparecimento do ípsilon em “abysmo” e em “lyrio”. Converter as duas palavras em abismo e lírio seria fazê-las perder o sentido. O ípsilon daria, segundo Pascoaes, a ideia de profundidade a “abysmo” e elegância a “lyrio”. Tudo isto parece simplesmente ridículo a pessoas do nosso tempo.

A reforma de 1911 introduziu alterações que nos parecem perfeitamente sensatas. Quem defende hoje ortografias como “theatro”, “asthma”, “rheumatismo”, “polyphonia”, “christão” ou “archipélago”? No entanto, essa reforma, que devia ter sido feita muito antes, recebeu adjectivos terríveis. Antifilosófica, inoportuna, contraproducente, selvagem e ridícula foram alguns dos impropérios com que foi mimoseada. Dir-se-ia que os promotores de tal reforma eram um bando de malfeitores bárbaros, ignorantes e inimigos da língua portuguesa, contra a qual teriam praticado horroroso crime. A história repete-se. Há poucos anos voltámos a ouvir adjectivos e críticas semelhantes. “Crime sem perdão” foi a assanhada expressão usada por um crítico do acordo ortográfico de 1990, pessoa ainda relativamente jovem e de elevado nível cultural. Parece mentira, mas não é. Como é possível pessoas cultas e responsáveis dizerem tais enormidades, dignas de figurarem numa antologia do disparate?

Em futuros artigos examinaremos em detalhe as regras estabelecidas pelo acordo e veremos se são ou não bem fundamentadas.

Autor deste artigo: João Manuel Maia Alves
publicado por João Manuel Maia Alves às 08:28
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1 comentário:
De João Carlos Reis a 5 de Agosto de 2015 às 17:17
Prezado João,
quando se fala em alterações ortográficas, surgem sempre pessoas manifestando a sua disposição para fazer novas reformas de imediato, em muitos casos com o entusiasmo e o fanatismo com que alguém se junta a uma cruzada ou a uma guerra de guerrilhas. Foi assim com o acordo ortográfico de 1990. Aconteceu o mesmo com alterações anteriores.
«A Drª Edite Estrela mostra uma certa compreensão e tolerância por este fenómeno.»... mas que magnânima que ela é... só é pena não o ser também para com o Idioma Português...
«As mudanças ortográficas interferem com os hábitos de escrita de cada falante; mexem com automatismos adquiridos em anos de prática; perturbam as rotinas e geram contestação”.»... é uma grande verdade, mas porque também não escreveu que as últimas reformas ortográficas não se adaptaram à fonética, mas que a fonética é que se adaptou às novas ortografias, especialmente onde a ortografia foi mais alterada??? Pois... deve-se ter convenientemente esquecido...
Hummm... será que morria alguém se usássemos a ortografia existente antes de 1911???
Como é possível pessoas, supostamente cultas e responsáveis, dizerem e fazerem tais enormidades como, por exemplo, serem favoráveis ao nivelamento por baixo do lindo Idioma Português e outras dignas de figurarem numa antologia do disparate?


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